Para o observador externo, a imagem mais icônica da Maçonaria é, sem dúvida, o avental. Essa peça de vestuário, carregada de simbolismo, identifica o grau e a função de um membro dentro de uma Loja. No entanto, para o iniciado, o avental não é uma fantasia ou um distintivo de honra; é um uniforme de trabalho. Mas o que acontece quando as luzes do Templo se apagam e o maçom retira esse paramento?
A iniciação é apenas o “abrir de olhos”. Depois que o impacto da cerimônia passa, começa o trabalho real, que os maçons costumam chamar de Desbastar a Pedra Bruta.
Diferente do que muita gente pensa, o maçom não ganha “poderes” ou segredos mundiais; ele ganha, na verdade, muito trabalho pessoal.
O primeiro passo do recém-iniciado é o autoconhecimento.
Historicamente, o avental era usado pelos pedreiros operativos para proteger suas roupas do pó e dos estilhaços da pedra. Na Maçonaria moderna (especulativa), ele simboliza a proteção da mente contra as influências externas e a disposição para o trabalho árduo no aperfeiçoamento do caráter.
Digo isso pelo motivo de que às vezes nos achamos pensadores especulativos e na verdade deveríamos estar trabalhando em algo. Mas afinal em quê estamos trabalhando?
Desde o seu ingresso na sublime ordem o que resta a você como maçom?
O quê foi construído desde que iniciaste, além da evolução oriunda de qualquer ser humano que tem consciência cívica de melhorar a cada dia?
Os ritos e rituais em seu cerne almejavam ser o método do obreiro. E hoje se resume a ser discutido em termos e posições geográficas ou disposição de artefatos, perdendo-se a essência e finalidade de sua existência. Ou você acredita que foram criados para serem manuais de procedimentos simplistas? O ritual é uma parte do laço místico. Como ou por que o homem deve fazer rituais e aprendê-los, amá-los, preservá-los, é tão misterioso quanto qualquer coisa na vida, mas sempre foi assim. Há algo profundo dentro de nós que exige uma forma definida de expressão: podemos dizer o pensamento de mil maneiras, mas nós o dizemos em uníssono e de uma maneira especial. E isto é verdade seja a Maçonaria, a Igreja ou a vida cotidiana que é preenchida com um ritual.
Porém, este artigo refere-se ao que o maçom leva para casa, para o seu escritório e para a sua comunidade. O verdadeiro maçom não é aquele que apenas executa rituais com perfeição, mas aquele que transforma a si mesmo em uma ferramenta útil para a sociedade.
A pedra somos nós mesmos, mas tendemos a cinzelar a pedra alheia. Isso é demagogia se você não trabalha em sua própria pedra. Mudar de grau não é evoluir, não passando de procedimento administrativo se não foi trabalhada a lição que o traz, por mais pomposo e ornado que sejas o avental quer agora usas.
O filósofo Marcuse em seu Livro “Eros e civilização “retrata essa gana da atual sociedade em satisfazer seus desejos às vezes maquiados em boas intenções”. “O que você faz quando ninguém te vê fazendo ou o que faria se ninguém pudesse te ver” diz uma música. Maquiavel é ridiculamente estudado e utilizado como manual por jovens que creem aprender politica com práticas traiçoeiras e vis.
O que a mão esquerda faz a direita não fique sabendo é ignorado por publicidade desmedida.
Infelizmente constatamos que, atualmente, adaptada aos novos tempos, a Ordem é uma sociedade iniciática, mas social, recreativa e religiosa congregando seres humanos comuns que se ajudam mutuamente. Concluindo, esta reflexão, inquirimos se, modernamente, em nossas Lojas: Realmente erguemos templos as virtudes?
Um método interessante de trabalharmos em nossa própria pedra, a cada semana escrevemos uma virtude em nossas anotações, que queremos melhorar e intensificar, e ao findar o dia relatamos como nos saímos, e oque dificultou de praticarmos a tal virtude. Isso é um exercício fantástico, e nos estimula a ficarmos vigilantes como prega nossos rituais. Alguns vão dizer, já faço isso de cabeça. Será mesmo?
A corrupção não esta só nos políticos, mas nos nossos espíritos corrompidos que se calam. O maçom hoje, teme a própria luz, por conta da aceitação social. Discutir maçonaria é falar sobre as dificuldades da prática de alguma virtude e por aí se aprofundar, e não erros de gráficas, datas de fundação ou algum fator que qualquer historiador não iniciado poderia fazer e já fazem. Não que não seja importante, mas isso é demasiadamente simplório se comparado ao que realmente é a Arte Real.
Aos outros, a tolerância de serem como quiserem. A nós, a obrigação de sermos cada dia melhores.
Concluindo, o avental pode ser de couro ou cetim, adornado com fitas ou simples em sua brancura, mas ele é apenas tecido. O que realmente importa é o homem que o veste. Ser maçom “além do avental” é compreender que a iniciação nunca termina. É um compromisso vitalício de ser um cidadão melhor hoje do que foi ontem.
A verdadeira Maçonaria não é vista nas procissões ou em fotos de redes sociais, mas no silêncio de uma boa ação e na firmeza de um caráter moldado pela busca da verdade.
Por: Jair Fonseca