A Maçonaria e a Bajulação Política
Por: Jair Fonseca
Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a tensão constante entre os princípios fundamentais da Maçonaria e a prática do envolvimento político, especialmente quando esta se manifesta através do apoio a figuras públicas.
A história da Maçonaria brasileira é, em larga medida, indissociável da história da construção do Estado nacional. Desde a Independência até a Proclamação da República, os templos maçônicos serviram como laboratórios de ideias onde se gestaram os ideais de liberdade e soberania.
No entanto, na contemporaneidade, surge um debate frequente sobre o limite entre a colaboração institucional para o progresso da sociedade e o que alguns chamam de “bajulação” ou oportunismo político.
Oficialmente, a Maçonaria proíbe discussões político-partidárias dentro de suas lojas. O objetivo é manter a harmonia entre os Irmãos, que podem possuir convicções ideológicas divergentes. A instituição foca no aperfeiçoamento moral do indivíduo, esperando que esse maçom, uma vez lapidado, atue na sociedade como um cidadão exemplar.
A Maçonaria, em sua essência doutrinária, apresenta-se como uma instituição de aperfeiçoamento moral e intelectual. Baseada em marcos históricos como a Constituição de Anderson (1723), a Ordem formalmente preconiza que as lojas devem evitar discussões partidárias e religiosas, visando a preservação da união entre seus membros, que professam as mais diversas crenças e ideologias. Contudo, a história e a prática contemporânea revelam um abismo entre o ideal normativo e a realidade do comportamento institucional.
Na contemporaneidade, observa-se um movimento de “aproximação” de certas correntes maçônicas com figuras do poder. À suposta bajulação de políticos por parte de lideranças maçônicas geralmente advém de alguns fenômenos, entre eles eu destaco;
Homenagens Estratégicas e pontuais, com entrega de comendas e títulos de “Membro Honorário” a chefes de Estado ou parlamentares influentes que é vista por alguns como uma forma de garantir acesso aos corredores do poder, mais do que um reconhecimento de virtudes maçônicas no homenageado.
O uso do maçom como “Cabo Eleitoral” e ainda que a Ordem não indique candidatos, é comum que membros se mobilizem para apoiar Irmãos ou políticos simpáticos às pautas da instituição, o que pode criar uma percepção de troca de favores.
E também a Foto de Prestígio que em uma era de redes sociais, a proximidade com o poder executivo é frequentemente usada para demonstrar relevância institucional, o que pode ser confundido com subserviência ou validação de governos específicos, independentemente de sua conduta ética.
O apoio explícito a candidatos ou políticos em exercício desvirtua a missão maçônica. Quando uma loja maçônica, ou parte de sua hierarquia, se coloca a reboque de um projeto político, ela deixa de ser um espaço de debate plural para se tornar um braço de influência de um grupo específico.
Ao tentar garantir acesso ao poder ou capitalizar em cima da imagem de figuras públicas (o que frequentemente resulta em fotos em templos ou manifestações de apoio maçônico a campanhas), a instituição acaba refém de escândalos e de uma imagem de “clube de interesses” que afasta a sociedade civil e gera desconfiança.
Quando a Maçonaria se aproxima demasiadamente do poder político de forma acrítica, ela corre o risco de comprometer sua autoridade moral. Se um político “bajulado” se envolve em escândalos de corrupção ou atos antidemocráticos, a sombra da desonra projeta-se também sobre os aventais daqueles que o cercaram de honrarias.
Por outro lado, defensores dessa proximidade argumentam que a Maçonaria não deve ser uma “ilha”, e que manter canais abertos com governantes é essencial para defender os interesses da pátria e promover ações de filantropia e civismo.
A Maçonaria sobreviveu a séculos de perseguições e críticas baseadas em teorias conspiratórias. No entanto, o seu maior risco atual não é o ataque externo, mas o desgaste da própria reputação por associar o esquadro e o compasso à conveniência política de ocasião. Quando maçons se identificam publicamente em cargos públicos com o selo da instituição, criam a sombra da dúvida: a meritocracia está sendo sobreposta pela rede de influência interna?
Conclusão, a Maçonaria é uma instituição composta por homens, e como tal, está sujeita às vaidades e às estratégias pragmáticas do mundo profano. O desafio da Ordem no século XXI continua sendo o mesmo de seus fundadores, influenciar a política pelos valores liberdade, igualdade e fraternidade e não pelos favores.
O verdadeiro “trabalho na pedra” não deveria ser o de construir palanques para políticos, mas o de edificar cidadãos tão íntegros que sua simples presença na vida pública dispense qualquer tipo de bajulação.
O envolvimento político é um direito individual de cada maçom, como cidadão. Contudo, a institucionalização desse apoio, o uso dos templos como palanque e o alinhamento cego a lideranças ferem o princípio da liberdade de consciência. Se a Maçonaria deseja manter sua relevância social, ela deve ser um farol de princípios universais e não uma caixa de ressonância para o populismo de turno.